- Data: 31 de outubro, véspera do Dia de Todos os Santos [1]
- Raízes: Samhain, uma festa celta que marcava o fim da colheita [1]
- Nome: uma contração escocesa de «All Hallows' Eve» [1]
- Gastos nos EUA: cerca de 13,5 mil milhões de dólares previstos para 2026, depois do recorde de 13,1 mil milhões em 2025 [3]
- Maior categoria: fantasias, com 4,4 mil milhões de dólares, à frente dos doces, com 4,1 mil milhões [3]
- Primeiro registo impresso de «trick or treat»: um jornal canadiano, 1927 [2]
Cresci a pensar que o Halloween era uma festa americana, como o Dia de Ação de Graças ou o 4 de Julho. Na minha terra, no Montana, fazíamos tudo à moda antiga. Fronhas de almofada como saco, máscaras de plástico baratas com um elástico que rebentava à terceira casa e uma regra rígida: estar em casa antes de as luzes dos alpendres se apagarem. Depois comecei a ler de onde vinha tudo isto e descobri que éramos apenas a última paragem de uma viagem com dois mil anos. A maior parte do caminho tinha sido feita noutro lugar.
Samhain e a noite fina
Muito antes de alguém esculpir uma abóbora, os celtas da Irlanda, da Escócia e de partes da Britânia e da França celebravam uma festa chamada Samhain (pronuncia-se mais ou menos SAU-in). [1] Calhava na passagem da metade clara do ano para a metade escura. A colheita estava recolhida. O gado descia das pastagens de verão. O inverno era a estação que matava gente, e toda a gente sabia disso.
Nessa noite, acreditavam os celtas, a fronteira entre os vivos e os mortos ficava fina. Os espíritos voltavam. Alguns regressavam a casa à procura de um lugar quente junto ao lume, e as famílias deixavam-lhes comida. Outros eram menos simpáticos, por isso as pessoas acendiam enormes fogueiras e disfarçavam-se, em parte para passar despercebidas e em parte para afugentar o que quer que andasse lá fora. [2]
O que, pensando bem, significa que o disfarce é a parte mais antiga do Halloween. Mais antiga do que os doces, as abóboras e o próprio nome.
Como a Igreja mudou o nome à noite
O cristianismo não apagou o Samhain. Mudou-se para a casa ao lado. No século VIII, o papa Gregório III fixou o 1 de novembro como dia em honra de todos os santos, e com o tempo a véspera passou a chamar-se All Hallows' Eve. [1] «Hallow» queria dizer simplesmente santo. Os escoceses encurtaram a expressão para Hallowe'en, e o poeta Robert Burns ajudou a palavra a pegar com um longo poema de 1785 chamado «Halloween», sobre gente do campo que nessa noite tentava adivinhar o futuro. [1]
Essas adivinhações contam mais do que se pensa. Muito do que hoje chamamos jogos de festa começou como tentativas sérias de ver o futuro. Apanhar maçãs com a boca numa bacia de água, descascar uma maçã numa única tira comprida e atirá-la por cima do ombro para ler na sua forma a inicial da pessoa amada, olhar fixamente para um espelho num quarto escuro para vislumbrar com quem se ia casar. Os jovens levavam isto muito a sério. O Halloween era tanto sobre romance como sobre fantasmas.
A lanterna de Jack era um nabo
Foi isto que mais me surpreendeu. Na Irlanda e na Escócia, as primeiras lanternas não eram abóboras. As pessoas esculpiam caras em nabos, batatas e beterrabas grandes, e punham lá dentro uma brasa ou uma vela. [2]
Por trás disto está a história de um homem chamado Stingy Jack, Jack, o forreta, que segundo a lenda enganou o Diabo duas vezes. Quando Jack morreu, o céu não o quis e o Diabo, ainda ressentido, também não o aceitou. Mandou Jack para a escuridão com uma única brasa acesa, que Jack meteu dentro de um nabo escavado. Desde então, Jack da lanterna vagueia pelos campos. As pessoas esculpiam as suas próprias caras assustadoras para o manter, a ele e a espíritos como ele, longe de casa. [2]
Quando milhões de imigrantes irlandeses chegaram aos Estados Unidos no século XIX, muitos a fugir da fome, levaram o costume com eles. E encontraram abóboras. Maiores, mais macias, ocas por dentro e muito mais fáceis de esculpir do que um nabo duro como pedra. A troca levou mais ou menos uma estação. Olhe para o nabo acima uns segundos a mais e vai perceber porque é que ninguém quis voltar atrás. Parece saído de um pesadelo, que era precisamente a ideia.
O doce ou travessura é mais novo do que os seus avós
A expressão «trick or treat», o nosso «doce ou travessura», tem apenas cerca de cem anos. O exemplo impresso mais antigo que se conhece vem de um jornal de Alberta, no Canadá, de 1927, que descreve crianças a ir de porta em porta. [2] Antes disso, o costume tinha outros nomes. Na Escócia e na Irlanda chamava-se «guising»: as crianças mascaradas tinham de ganhar a guloseima com uma canção, um poema ou uma piada.
A parte da «travessura» também era real. Nos Estados Unidos do início do século XX, o Halloween tornou-se bastante bruto. Os rapazes derrubavam latrinas, tiravam portões das dobradiças e ensaboavam janelas por toda a cidade. Nas décadas de 1920 e 1930, as cidades começaram a procurar maneira de canalizar toda essa energia para algo menos destrutivo. Anoka, no Minnesota, organizou em 1920 uma das primeiras celebrações oficiais de Halloween, com um desfile e uma fogueira pensados para manter os jovens longe de sarilhos. [4] A cidade ainda se apresenta como a capital mundial do Halloween. Passei por Anoka uma única vez, numa viagem de outono para visitar o meu primo em Minneapolis, e a terra inteira estava cor de laranja.
Depois veio a Segunda Guerra Mundial, o açúcar foi racionado e o doce ou travessura praticamente parou. [2] Voltou em força depois da guerra, durante o baby boom, quando os subúrbios se encheram de crianças e os fabricantes de doces perceberam a mina de ouro que esta noite podia ser.
Guloseimas, dinheiro e o mito dos doces envenenados
O candy corn é mais antigo do que o doce ou travessura. Um confeiteiro de Filadélfia inventou estes rebuçados em forma de grão de milho na década de 1880, e na altura comprava-se o ano inteiro, não só em outubro. [2] Era um doce do campo, com a forma dos grãos de milho com que muitos americanos ainda trabalhavam todos os dias.
Hoje os números são quase difíceis de acreditar. Em 2025, os americanos gastaram um recorde de 13,1 mil milhões de dólares no Halloween, e a National Retail Federation espera cerca de 13,5 mil milhões este ano. [3] O que me surpreendeu foi para onde vai o dinheiro. As fantasias valem agora 4,4 mil milhões de dólares, a decoração 4,3 mil milhões, e os doces ficam só em terceiro lugar, com 4,1 mil milhões. [3] Uma festa construída sobre o açúcar gasta agora mais no que se veste e no que se pendura no alpendre.
E quase ninguém fala disto, mas o grande medo de todos os pais quando eu era pequeno, a lâmina dentro da maçã ou o doce envenenado dado por um desconhecido, na verdade nunca aconteceu. Os investigadores que procuraram casos de desconhecidos que tivessem matado crianças com doces de Halloween não encontraram nada. [5] O caso mais famoso, no Texas em 1974, envolveu um pai que envenenou o próprio filho com Pixy Stix adulterados para receber um seguro. Tentou fazer parecer obra de um desconhecido qualquer. Não era. [5] A minha mãe verificava na mesma cada embrulho. Como todas as mães.
Algumas coincidências estranhas do Halloween
Há coisas nesta noite que parecem escritas por um argumentista. Harry Houdini, o mais famoso escapista de sempre e um homem que passou anos a desmascarar falsos médiuns, morreu no Halloween de 1926. [1] Durante décadas, os fãs fizeram sessões espíritas a 31 de outubro na esperança de receber uma mensagem do além. Ele tinha prometido à mulher que ia tentar. Não chegou nada.
As cores também têm uma história. O laranja representa a colheita e as folhas de outono. O preto representa a metade escura do ano e a morte. Junte-as e tem o Samhain em duas cores, ainda impresso em cada saco de mini chocolates no supermercado, dois mil anos depois de as fogueiras se terem apagado.
Perguntas frequentes
Onde surgiu o Halloween?
O Halloween vem do Samhain, uma festa celta celebrada na Irlanda, na Escócia e em regiões próximas para assinalar o fim da colheita. Os celtas acreditavam que os mortos podiam regressar nessa noite. Mais tarde fundiu-se com a véspera cristã do Dia de Todos os Santos, e os imigrantes irlandeses e escoceses levaram os costumes para a América do Norte.
Porque se esculpem abóboras no Halloween?
As abóboras esculpem-se por causa de uma tradição irlandesa e escocesa de esculpir caras em nabos e batatas para afugentar espíritos errantes. Os imigrantes irlandeses nos Estados Unidos passaram para as abóboras no século XIX, porque eram locais, maiores e muito mais fáceis de escavar.
Quando começou o doce ou travessura?
O doce ou travessura como o conhecemos ganhou forma na América do Norte nas décadas de 1920 e 1930. A expressão «trick or treat» apareceu impressa pela primeira vez num jornal canadiano em 1927. Nasceu de costumes escoceses e irlandeses mais antigos chamados guising, em que crianças mascaradas atuavam em troca de comida.
Quanto gastam os americanos no Halloween?
A National Retail Federation prevê que os americanos gastem cerca de 13,5 mil milhões de dólares no Halloween em 2026, perto do recorde de 13,1 mil milhões de 2025. As fantasias lideram com 4,4 mil milhões, seguidas da decoração com 4,3 mil milhões e dos doces com 4,1 mil milhões. Em média, cada comprador planeia gastar cerca de 115 dólares.
Alguém já foi envenenado com doces de Halloween dados por um desconhecido?
Não existe nenhum caso confirmado de um desconhecido que tenha matado uma criança com doces de Halloween envenenados. O caso mais conhecido, no Texas em 1974, envolveu um pai que envenenou o próprio filho e culpou estranhos. O medo espalhou-se muito, mas os investigadores consideram-no em grande parte um mito.